quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O doce veneno do escorpião


"...Sem perceber, comecei a colocar tudo o que queria dizer a ela no papel. Não foi premeditado. Foi espontâneo e sincero, como há muito tempo eu não conseguia ser. Agradeci por tudo o que tinha feito por mim, pedi perdão pela dor que ela sentiria, mas deixei claro que estava indo buscar minha felicidade, onde quer que ela estivesse. Desejei que, dessa maneira, ela e meu pai também pudessem voltar a ser felizes, sem mim, sem meus problemas. Reli a carta, que parecia de um suicida. Não conseguiria escrever nada diferente, porém. De certa maneira, algo morria dentro de mim naquele dia.
Deixei a carta em cima da mesa, apanhei o fichário e a mochila. Eu sempre saia pela porta da cozinha. Passei por minha mãe, que estava fazendo o almoço, de costas para mim, esconstada na pia. "Tchal, mãe." Ela não me respondeu. Ela não se virou. Eu sabia que era para nunca mais. Ela não. Fiquei parada na porta um segundo, olhando para ela. Ela não se virou. Me arrependo tanto do abraço que não tive coragem de dar naquela hora. Eu amo minha mãe. Ela não sabia. Ela não se virou. Não veio nenhuma palavra, nenhum gesto. Nem dela, nem meu. Me virei. Em silêncio, fechei a posta atrás de mim. Tchal, mãe."
(Raquel, Bruna Surfistinha)
Retirei esse trecho do livro "O doce veneno do escorpião- Diario de uma garota de programa" é da Bruna Surfistinha, não tenho muito a dizer, o livro é bom, tem algumas coisas bem quentes, mais nada que fugisse da realidade e da verdade. Coloquei exatamente esse trecho por que me emocionei muito nele, e porque fui capaz de entender nesse momento, que nunca devemos jugar ninguém pelo que se parecem ser, ou até mesmo pelo que são. Porque no fundo nunca vamos saber de verdade como realmente uma pessoa é. E o que ela sente, e o que ela pensa. Simplismente só devemos aceitar as pessoas como elas são.
.-.Melissa Lobo.